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Você é daqueles que, como eu, ficam calculando quanto dinheiro teriam que juntar para viver de renda?

Nesse blog já falamos sobre quanto acumular para ter um rendimento mensal acima de R$ 7.000 e sobre onde investir para manter o patrimônio e gastar só o que render de juros. 

Mas vale ainda fazer um alerta para não se quebrar a cara no futuro. Listei aqui dois erros muito comuns que vejo amigos cometerem ao calcular quanto dinheiro precisarão acumular para viver de renda.

Esses tipos de erro eu já vi mais de uma vez em peças de marketing de empresas do setor financeiro, como consultorias e escritórios de assessoria em investimento.

Vamos lá.  

Erro nº 1: Ignorar a inflação

Não pode. É muito tentador olhar para o extrato de investimentos e pensar: “Se minhas aplicações estão rendendo R$ 1.000 por mês, então eu posso gastar R$ 1.000 por mês”.  

Está errado. Se você fizer isso sempre, vai manter o seu patrimônio apenas nominalmente.

Se tinha R$ 100 mil, vai continuar com R$ 100 mil para sempre, mas daqui a dez anos esses R$ 100 mil não terão o mesmo poder de compra que têm hoje.

Isso quer dizer que os R$ 1.000 que você gasta todo mês vão valer cada vez menos.

Digamos que com R$ 1.000 hoje você pague o condomínio do prédio e encha o tanque de gasolina. Daqui a dois ou três anos, talvez esses R$ 1.000 deem apenas para o condomínio e mais meio tanque. Até o momento em que nem o condomínio você vai pagar.

Portanto, se você quer manter o poder de compra do seu patrimônio, deve gastar apenas aquilo que superar a inflação.

Por exemplo, caso você tenha R$ 100 mil, e a inflação estiver em 0,4% ao mês, significa que o seu patrimônio perdeu cerca de R$ 400 de um mês para o outro. Ou seja, se ele rendeu R$ 1.000, você só pode gastar R$ 600.

Erro nº 2: Ignorar que a rentabilidade da renda fixa muda

Este erro é muito comum, pois as pessoas costumam achar que a renda fixa vai dar uma rentabilidade real de 0,5% ao mês para sempre.

Assim, começam a fazer contas do tipo: “Se o meu dinheiro rende hoje 0,5% ao mês acima da inflação, isso significa que, para ter uma renda mensal de R$ 5.000, eu deveria ter investimentos de R$ 1 milhão”.

Até aí tudo bem. O problema começa quando vem a conclusão: “Logo, preciso juntar R$ 1 milhão nos próximos 20 anos para começar a viver de renda”.

O erro está no fato de que, daqui a 20 anos, mesmo que você tenha conseguido juntar R$ 1 milhão corrigidos pela inflação, é possível que as aplicações de renda fixa estejam rendendo não mais 0,5% ao mês, mas, digamos, 0,1% ao mês.

Nesse caso, o seu R$ 1 milhão vai dar a você uma renda real mensal não de R$ 5.000, mas de apenas R$ 1.000. E aí?

Quanto é preciso acumular, então?

Bom, vou listar três opções.

1. Juntar muito dinheiro e só gastar o rendimento real

Você pode tentar juntar uma quantia monstruosa para que um rendimento real de 0,1% ao mês seja suficiente para pagar as suas contas.

Caso você tenha gastos de R$ 5 mil por mês, pode tentar acumular um total de R$ 5 milhões. Se, quando você juntar esse dinheiro, as aplicações de renda fixa estiverem com rentabilidade real de 0,1% ao mês, você se garantiu. Se o rendimento estiver maior, você sai no lucro; se estiver menor, terá que se virar para gastar menos.

2. Gastar as reservas aos poucos até o fim da vida

É simples: você  junta um valor um pouco menor e tenta prever quantos anos vai viver. Assim, você consegue fazer retiradas de acordo com os seus gastos. As suas reservas vão baixando aos poucos.

Nesse caso, a qualquer sinal de que elas podem não durar tempo suficiente, é preciso repensar o ritmo de despesas. Essa estratégia exige que você fique sempre atento ao tamanho das suas reservas. Mas hoje já existem ferramentas que facilitam esse cálculo (falarei mais nas próximas semanas).

3. Assumir risco controlado em renda variável

Existem formas de se expor ao risco de forma controlada.

Para quem não quer ficar acompanhando diariamente os movimentos do mercado acionário, uma maneira de ganhar com a renda variável é praticar o rebalanceamento da carteira.

Nas próximas semanas, falarei sobre essas três formas de viver de renda. Por enquanto, apenas quero lembrar que é importante não subestimar a inflação e nem a tendência de queda da taxa básica de juros. Esses dois detalhes representam uma diferença enorme entre a renda que você prevê ter e a que terá de verdade. 

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Sílvio Crespo

Jornalista econômico e educador financeiro. Foi editor-assistente de Economia do portal do Estadão. Ganhou duas vezes o prêmio de melhor blog do jornal O Estado de S. Paulo e uma vez o prêmio Case New Holland de Jornalismo, pelo blog Achados Econômicos, do UOL.